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“E essa Justiça desafinada é tão humana e tão errada”. Renato Russo

Entrevista inaudível

Posted by marcocsouza em junho 10, 2007

Da coluna de Rubens Nóbrega no Jornal Correio da Paraíba:
Entrevista inaudívelO rádio e as pilhas foram comprados quase na mesma hora do mesmo dia para viabilizar uma entrevista que faria com Dom Antônio Batista Fragoso.Recém aposentado da Diocese de Crateús (CE), Dom Fragoso viera morar na casa de uma irmã no José Américo, em João Pessoa, retornando à sua Paraíba materna para viver seus últimos dias.
Fiquei e saí daquele encontro tão abestalhado com o homem, sua vida e obra, dos quais sabia muito pouco até então, que não cuidei de checar se a gravação da entrevista ficara boa ou não.
Quando fui reproduzir para transcrever a entrevista, cadê? A fita não captou com qualidade um por cento, sequer, do que Dom Fragoso dissera.
Os professores Romero Antônio e Luiz Gonçalves, que me levaram até Dom Fragoso, tentaram me ajudar encontrando uma moça especializada em degravações, mas nem ela conseguiu tirar alguma coisa inteligível da entrevista.
Ainda pensei em puxar pela memória, porque até hoje guardo o que aquele santo homem disse. Mas poderia não ser fiel cem por cento à fala e ao pensamento de Dom Fragoso.
Um pouco dele
Dom Antônio Fragoso faleceu em 12 de agosto de 2006. Era paraibano de Teixeira, formou-se no Seminário em João Pessoa lá pelos anos 50 e nos 60 foi ser bispo auxiliar no Piauí. Quando estourou o golpe de 64, Dom Fragoso era pra estar como arcebispo de Fortaleza, mas desde o outro Estado ele já tinha fama de esquerdista e era tido como comunista pela linha dura do regime.
A alta cúpula da Igreja Católica mandou Dom Fragoso para Crateús, encarregando-o de fundar uma nova Diocese, tarefa que, pensaram, deixaria o homem ocupado demais para “se meter em política”.
Mas a única política que o bispo sabia fazer era a política do bem, de construir uma Igreja a serviço dos mais pobres, dos excluídos de tudo, dos asilados de toda e qualquer cidadania.
Por essa e outras, Dom Fragoso era temido pela ditadura, que em vão tentou intimidá-lo de todas as formas, inclusive com privação da liberdade, mas não o fez porque a fama do bispo e da Diocese de Crateús já corria o mundo.
Qualquer coisa que fizessem contra o Dom, como o chamam até hoje lá no Ceará, era capaz de aumentar a indignação internacional contra a ditadura brasileira para além da condenação formal que já sofria o truculento regime. Seria no mínimo temerário para os ditadores de então prender ou dar fim a um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação, exercente da mais justa opção preferencial pelos pobres, com toda a força de sua prática sacerdotal e episcopal.
Dom Fragoso fez de Crateús, entre os anos 60 e 70 do século passado, a mais avançada célula de propagação da fé que transformou pela organização a realidade histórica de um povo sofrido, até ele chegar sem rumo e sem esperança de mudar a própria vida.
Por aí se vê porque saí daquela entrevista tão impactado por Dom Fragoso.
Daí por que ninguém vai se admirar se eu disse que passei a acreditar no seguinte: naquela entrevista, o entrevistado transmitiu algo diferente para o meu rádio.
Dizem que pilhas transformam energia química em energia elétrica. No caso das minhas pilhas, é mais que isso. A transformação se opera dentro de mim, graças à energia que Dom Fragoso passou pra elas.

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